Os programas de saúde dos candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam visões diametralmente opostas sobre o papel do Estado, mas ambos enfrentam a mesma crítica: a falta de metas claras e financiamento definido. Em meio a uma restrição orçamentária histórica, a saúde pública se vê pressionada, com o Senado prevendo uma limitação de R$ 105,5 bilhões nas despesas não obrigatórias da União até 2026, afetando diretamente o setor.

O projeto de Lula se baseia na continuidade de iniciativas já em vigor, como o programa Mais Médicos e a digitalização do SUS. Embora tenha dados mensuráveis de desempenho, essa abordagem também revela fragilidades, como evidenciado pelo programa “Agora Tem Especialistas”, que, apesar de realizar um número recorde de cirurgias, foi criticado por problemas na execução.

Por sua vez, Flávio Bolsonaro apresenta o “Plano Real da Saúde”, que inclui a correção da tabela do SUS e um novo modelo de pagamento, focado no desempenho. Contudo, sua proposta carece de estimativas claras de custo e prazos, o que levanta preocupações sobre a possibilidade de despesas crescentes sem uma fonte orçamentária correspondente.

Ambos os programas propõem utilizar a capacidade ociosa do setor privado para diminuir as filas de espera, mas com abordagens distintas. O programa de Lula tem mostrado resultados concretos, enquanto a proposta de Flávio, que envolve contratação de exames em horários ociosos, é vista como uma versão simplificada de iniciativas anteriores.

Outro ponto em comum é a promessa de um prontuário eletrônico único, embora com enfoques diferentes: Lula enfatiza a integração do SUS, enquanto Flávio busca interoperabilidade entre o setor público e privado. A proposta de Flávio, no entanto, é criticada por especialistas que temem que a troca de dados entre operadoras possa levar à seleção de riscos.

Questões fundamentais, como o financiamento das promessas, permanecem sem resposta. Lula enfrenta o desafio de equilibrar seu plano com as exigências orçamentárias, enquanto Flávio promete mudanças sem esclarecer como isso será financiado. Ambas as campanhas também apresentam propostas para saúde mental e cuidados com idosos, mas sem detalhes sobre a implementação.

Em áreas críticas como câncer, vacinação e soberania sanitária, o programa de Lula se destaca por ter mais conteúdo e histórico de execução, enquanto Flávio não aborda esses temas de forma específica. A vacinação, em particular, é uma questão sensível, pois o Brasil enfrenta desafios na cobertura vacinal.

No fim das contas, tanto Lula quanto Flávio pedem ao eleitor confiança em suas promessas de saúde, mas sem apresentar números que possibilitem cobranças futuras.