A atual eleição presidencial no Brasil destaca-se por sua singularidade histórica. De um lado, o presidente, com 80 anos, busca a reeleição após quase cinquenta anos à frente de um partido. Embora haja exemplos de líderes que assumiram o poder em idade avançada, como Donald Trump, a intensa dependência de uma única liderança é incomum nas democracias contemporâneas.
Do outro lado, um candidato escolhido por um clã familiar enfrenta a disputa, tendo sido indicado devido ao encarceramento do titular, que se envolveu em uma conspiração. Sua candidatura é amplamente sustentada pela influência do pai e pelo que se pode considerar um voto por exclusão.
Entretanto, o principal traço desta eleição é o elevado cinismo cívico. Ambos os candidatos e seus familiares estão envolvidos em graves acusações de corrupção, com características que foram descritas como “mafiosas” pelo ministro André Mendonça. As instituições brasileiras atingiram um nível de degradação que nunca haviam vivenciado, afetando até as cortes superiores, como o STF e o STJ.
Nesse contexto, a democracia brasileira enfrenta um momento crítico, com uma degradação que compromete sua defesa. O país se depara com uma mudança qualitativa: não é apenas o patrimonialismo que se manifesta, mas uma corrupção que se articula com a criminalidade organizada e violenta.
O sentimento de fracasso coletivo atual é um dos mais intensos da história republicana. Embora a Primeira República e o período pós-guerra tenham apresentado frustrações e cinismo cívico, existiam ideias mobilizadoras que buscavam a transformação institucional. Vicente Licínio Cardoso, ao refletir sobre a frustração de sua geração, comentou que o Brasil retrocedeu, destacando o “rotundo fracasso” da primeira geração republicana.
Curiosamente, essa percepção de fracasso gerou um movimento transformador que, embora não tenha resultado em instituições melhores, culminou no Estado Novo e no populismo nacional-desenvolvimentista. Nos finais dos anos 1970 e início dos anos 1980, as aspirações de mudança de regime também inspiraram reformas institucionais significativas, mas agora estamos diante de um ciclo histórico que se esgotou.
Atualmente, os principais atores políticos operam em modo de sobrevivência. Partidos e instituições tentam preservar suas posições e proteger seus membros. Essa dinâmica de sobrevivência levou à polarização, onde a rejeição a cada um dos polos apenas reforça a necessidade do outro. O desgaste não resulta na exclusão dos envolvidos, mas sim na sua interdependência.
A competição democrática, por sua vez, parece não mais promover renovação.