A estudante Ana Luiza Souza Ferreira, de 20 anos, enfrentou um imprevisto nas últimas eleições e não conseguiu votar em Governador Valadares (MG). Para regularizar sua situação, ela optou por pagar a multa da Justiça Eleitoral. Sem planos de viajar neste ano, Ana Luiza indicou que provavelmente se juntará ao crescente número de eleitores que se abstêm, afirmando: “As promessas surgem apenas durante as eleições. Depois, nada acontece. Prefiro pagar a multa.”
Esse aumento na abstenção eleitoral se tornou um desafio para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e influencia as candidaturas em um cenário competitivo pela Presidência da República. Especialistas sugerem que essa tendência pode prejudicar o presidente Lula (PT), que busca a reeleição. Dados mostram que o perfil dos eleitores que não comparecem às urnas se alinha mais ao do petista. Por outro lado, o aumento do engajamento feminino nas eleições pode favorecer Lula, em contraste com a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Desde 2002, quando as urnas eletrônicas foram introduzidas, a abstenção tem crescido. Na primeira eleição em que Lula foi eleito, 17,7% dos eleitores não votaram no primeiro turno, e esse número subiu para 20,9% em 2022. No segundo turno daquele ano, a abstenção caiu para 20,5%, uma queda atribuída à acirrada disputa entre Lula e Jair Bolsonaro (PL).
Maraã (AM) registrou a maior abstenção no segundo turno de 2022, com 45,5% de ausência, enquanto Governador Valadares teve 27,5%, a maior entre cidades com mais de 200 mil eleitores. Moradores citam vários motivos para não votarem. A advogada Késia Ferreira, de 34 anos, mencionou compromissos profissionais, enquanto o administrador Neuber Santos, de 42 anos, se ausentou devido a uma viagem de lazer, mas pretende votar nas próximas eleições.
Cientistas políticos ainda não dispõem de pesquisas que expliquem completamente este fenômeno, mas sugerem que as razões incluem a dificuldade de acesso aos locais de votação, desinteresse pelas eleições e a falta de atualização dos cadastros eleitorais. A penalidade pelo não comparecimento é considerada quase simbólica. O cientista político Jairo Nicolau, da FGV, destaca que a falta de consequências significativas para a ausência pode levar os eleitores a optarem por não votar, especialmente se não houver implicações pessoais.
O voto é obrigatório para cidadãos entre 18 e 70 anos, exceto analfabetos. A ausência pode ser justificada pelo aplicativo e-Título do TSE, sem necessidade de documentação. Caso o eleitor não o faça, uma multa de R$ 3,51 por turno é aplicada, e o título pode ser cancelado após três faltas consecutivas. Em 2025, cerca de 5 milhões de eleitores tiveram seus títulos cancelados por não comparecerem nas últimas três eleições.
A discussão sobre a abstenção também envolve a proposta de tornar o voto facultativo. Nicolau sugere que aumentar a multa poderia incentivar a participação. Felipe Nunes, da Quaest, observa que a crescente abstenção, aliada à redução de votos nulos e brancos, sinaliza que os eleitores estão entendendo melhor o sistema. Em 1989, 10% da população não tinha título de eleitor; hoje, esse número caiu para 5%, o que representa cerca de 8 milhões de pessoas.
Dados do TSE mostram que a abstenção é maior entre eleitores com menor escolaridade. As mulheres, que tendem a votar em Lula, apresentaram uma taxa de abstenção menor no primeiro turno de 2022, com 19,96% contra 21,98% dos homens. A desigualdade na abstenção pode impactar significativamente os resultados eleitorais, especialmente para a esquerda.
O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) ressaltou que a preocupação com a abstenção está na agenda do partido, especialmente entre os eleitores de baixa renda. Ele destacou que é dever do TSE promover a conscientização sobre a importância do voto. O TSE, por sua vez, não se manifestou sobre estratégias para aumentar a participação do eleitorado neste ano.
Por fim, o cientista político Antônio Alkmin alertou que campanhas também podem desestimular a participação de eleitores que se alinham ao adversário, como demonstrado em estratégias utilizadas pela Cambridge Analytica em outras eleições.
Fonte: redir.folha.com.br