Na manhã da última quarta-feira de julho, a Catedral Nossa Senhora da Penha, localizada no centro do Crato, Ceará, recebeu a visita de Lucca Nobre, um jovem professor de 25 anos. O templo, inaugurado em 1745 e um símbolo da forte presença católica na cidade — onde 81% da população se declara católica, em contraste com a média nacional de 56,7% — serve como um refúgio espiritual para ele.
Lucca leciona em Barbalha, cidade vizinha, onde compartilha conhecimentos sobre literatura, filosofia e história. Ao ser questionado sobre suas preferências eleitorais para as próximas eleições presidenciais, ele costuma evitar o assunto, respondendo que “o voto é secreto”. Contudo, sua inclinação política é clara: Lucca se identifica como um conservador de direita. Ele se descreve, inspirando-se em versos do cantor cearense Belchior, como “um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes”.
Formado em Direito pela Universidade Regional do Cariri, Lucca sonha em atuar na advocacia, mas tem se dedicado ao ensino de clássicos. Ele vive sozinho, dá aulas três vezes por semana e utiliza seu tempo livre para assistir a filmes, documentários e ler. Seu interesse por política surgiu na escola e, embora tenha flertado brevemente com o socialismo, ele se afastou dessa ideologia ao descobrir autores conservadores pela internet, como Olavo de Carvalho, que influenciaram sua formação.
Lucca foi membro do Movimento Brasil Livre (MBL), mas decidiu se afastar, sentindo que muitos membros não compartilhavam de seu idealismo. Ele votou em Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022, mas hoje distancia-se do bolsonarismo, acreditando que a figura do ex-presidente dificultou o surgimento de novas lideranças na direita. Para as eleições de outubro, ele planeja apoiar Renan Santos, candidato do partido Missão, enxergando nele uma proposta inovadora e alinhada com sua visão de mudança.
Em relação à segurança pública no Ceará, Lucca expressa preocupação com o domínio das facções criminosas e menciona um caso de uma família em Barbalha que teve que abandonar sua casa devido a ameaças. Essa experiência moldou sua visão sobre o ex-governador Ciro Gomes, a quem vê como um potencial aliado na luta contra a criminalidade, apesar de sua trajetória como aliado do PT.
Lucca critica a aproximação de setores conservadores com grupos evangélicos radicais e afirma que, em uma disputa hipotética entre Lula e Michelle Bolsonaro, votaria no petista, destacando sua preocupação com a instrumentalização da política por crenças religiosas. Ele também manifesta apreensão sobre a radicalização política entre os jovens, influenciada pelas redes sociais, e acredita que o catolicismo político pode emergir como uma força significativa no Brasil, sem saber ainda qual será o espaço partidário dessa nova direita.
Fonte: redir.folha.com.br