Em junho de 2005, Flávio Bolsonaro, então deputado estadual em seu primeiro mandato, homenageou o ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A justificativa foi a prisão de 12 suspeitos em uma operação no Morro da Coroa, onde também foram apreendidos armamentos e drogas. Adriano estava preso na época, acusado de matar um guardador de carros que teria denunciado torturas e extorsões.
Flávio, que era filiado ao PP, entregou pessoalmente a medalha a Adriano na prisão. Anos depois, o ex-capitão se tornaria um nome controverso, apontado como líder de uma milícia e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime. Em 2019, Adriano se tornou foragido e, um ano depois, foi morto em uma operação policial na Bahia. O então presidente Jair Bolsonaro afirmou que havia solicitado a homenagem em um momento em que Adriano era considerado um “herói da Polícia Militar”.
Esse episódio se tornou uma ferramenta na campanha de Lula, que explora as supostas ligações de Flávio com milicianos. Durante um recente debate, Lula afirmou querer “distância de milicianos” em resposta a um pedido de Flávio para que se aproximasse. Em ato de campanha em São Gonçalo, Lula reiterou que milicianos não deveriam ter representação no governo.
A campanha de Flávio não respondeu aos questionamentos sobre o tema. O senador do PL costuma contestar as críticas, afirmando que as propostas de segurança de seus adversários são ineficazes e que “os bandidos sempre ficam felizes” com as declarações de Lula. Flávio defende a classificação de milícias como grupos narcoterroristas, incluindo-os em suas falas sobre segurança pública.
Embora não existam provas concretas do envolvimento direto de Flávio com as milícias, especialistas alertam para sua afinidade ideológica com esses grupos. O sociólogo José Cláudio Sousa Alves destaca que Flávio tem discursos que reforçam a lógica das milícias e práticas de execução sumária. A conexão mais visível se dá pelo vínculo com Adriano, que era conhecido como um dos maiores matadores do Rio, enquanto Flávio ofereceu cargos a sua mãe e ex-esposa, que foram exoneradas em 2018.
Além disso, Flávio está sob investigação por uma emenda parlamentar de R$ 200 mil que beneficiou um projeto associado a Robson Calixto da Silva, investigado por ligação com o assassinato da vereadora Marielle Franco. Flávio também votou a favor da instalação da CPI das milícias, embora tenha declarado ser contra a investigação.
O discurso em favor das milícias é recorrente na família Bolsonaro. Jair Bolsonaro já declarou que a presença de milícias pode ser uma solução para a violência em algumas regiões e, mesmo após deixar a presidência, fez comentários sobre ataques associados a milícias como atos de terrorismo.