Três meses após a revelação de que o filme "Dark Horse" recebeu financiamento de Daniel Vorcaro, do Master, ainda não foram divulgadas a prestação de contas nem o contrato relacionado ao projeto. Flávio Bolsonaro (PL), durante a pré-campanha presidencial, confirmou o recebimento de recursos de Vorcaro para a produção, que narra a história de seu pai, mas não apresentou detalhes sobre a transação.

Em resposta à Folha, a assessoria de Flávio informou que a responsabilidade pela prestação de contas cabe à produtora do filme, a Go Up. Em entrevista à Globo, Flávio alternou entre afirmar que "nunca é demais" esclarecer a relação com o ex-banqueiro e insistir que o assunto está "mais que esclarecido". Ele mencionou ter apresentado um laudo pericial solicitado pela Go Up, mas esse documento não traz informações detalhadas sobre a destinação dos recursos.

O laudo, elaborado a pedido de Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up, foi anexado a um processo que envolve um contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo. O relatório aponta que o custo total da produção no Brasil foi de US$ 3.728.084,66, enquanto o total de despesas nos Estados Unidos alcançou US$ 9.664.996,63, totalizando US$ 13.393.081,29. Essa quantia corresponde a aproximadamente R$ 75,2 milhões, segundo a taxa de conversão utilizada.

A perícia confirmou que não foram utilizados recursos públicos ou incentivos, mas não detalhou os fornecedores que receberam pagamentos da Go Up, nem apresentou documentação fiscal que comprovasse a aplicação dos valores. As categorias de despesas relatadas são gerais, como "elenco" e "equipe técnica", sem esclarecer a compatibilidade dos valores com o mercado cinematográfico.

A produção levantou dúvidas devido à falta de experiência da Go Up e ao custo elevado em comparação ao orçamento típico da indústria. Em maio, a produtora afirmou que buscaria uma auditoria internacional para revisar a movimentação financeira, o que não ocorreu. O perito Anísio Costa Castelo Branco reconheceu em entrevistas que o laudo tem lacunas, como a falta de informações sobre os preços do mercado e a origem dos recursos.

Além disso, o laudo indica que o valor gasto é equivalente ao aporte do Havengate Development Fund LP, que investiu na produção em fevereiro de 2025. No entanto, Karina havia mencionado a existência de mais de dez investidores internacionais, incluindo uma empresa de mídia americana, cujos nomes nunca foram divulgados por conta de um acordo de confidencialidade.

Karina não respondeu sobre a destinação dos recursos desses outros investidores e não esclareceu as lacunas do laudo ou o motivo da auditoria não ter sido realizada conforme prometido.

Cronologia do caso Flávio Bolsonaro e "Dark Horse":

  • 13/maio: Flávio nega recebimento de recursos de Vorcaro.
  • 13/maio: Intercept divulga áudio de Flávio pedindo dinheiro ao ex-banqueiro.
  • 13/maio: Após a revelação, Flávio confirma a busca por Vorcaro, mas nega irregularidades.
  • 14/maio: Go Up e Mario Frias negam que o filme tenha recebido verbas de Vorcaro.
  • 15/maio: Flávio Dino, do STF, abre apuração sobre emendas ligadas a empresas de Karina.
  • 10/jun: Laudo pericial confirma gastos, mas com falta de informações.
  • 20/ago: Flávio considera o caso "página virada", mesmo sem prestação de contas.

Fonte: redir.folha.com.br