Na sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada na terça-feira (15), a ministra Cármen Lúcia fez um pedido de desculpas que tocou os defensores dos direitos das mulheres, mas deixou insatisfeitos aqueles que esperavam uma ação decisiva para conter o tumulto gerado por seus colegas ministros, todos homens. “Peço desculpas ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente”, afirmou.

A declaração ressoou entre magistradas de todo o país, como destacou uma juíza parte de um dos 12 coletivos feministas que enviaram flores à ministra. Embora a legislação proíba juízes de comentar sobre processos em andamento, não os impede de sugerir leituras. Uma magistrada de outro coletivo mencionou que a newsletter “Todas”, publicada na Folha no dia seguinte, reflete bem o pensamento das juízas sobre a situação.

Na publicação, a jornalista Angela Boldrini mencionou a presença de ministros do STF entre os convidados de uma festa em um local notório, ressaltando que ministras e juízas não fazem parte desse “clubinho”. A advogada Maria Berenice Dias, primeira mulher a ser magistrada no Rio Grande do Sul, afirmou que “Cármen Lúcia foi a voz de toda a sociedade”. Para ela, o que se viu no STF foi um triste espetáculo que diminuiu a imagem da instituição, que deveria ser a base de um Estado Democrático de Direito.

Raquel Dodge, ex-procuradora-geral da República, elogiou Cármen Lúcia por expressar um mal-estar cívico, convocando a corte a agir para restabelecer a paz e a justiça no país. Eliana Calmon destacou a dificuldade de uma mulher se afirmar em uma corte predominantemente masculina e criticou a ministra por ter se alinhado aos mais influentes politicamente.

Calmon agradeceu a Cármen por resistir às pressões e manter sua integridade moral. No entanto, a desembargadora do TJ-SP não aceitou as desculpas, considerando-as tardias e ineficazes, e afirmou que a ministra permitiu uma encenação que atrasou o julgamento de casos importantes.

Cármen Lúcia não é a primeira a pedir desculpas em nome do Judiciário. Em 2019, a ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, se desculpou com pessoas afetadas pela paralisação de processos de indenização. Em 2025, Maria Elisabeth Rocha, presidente do STM, também fez um pedido de desculpas em um culto em memória de Vladimir Herzog, e o presidente do TJ-SP, Ricardo Sartori, se desculpou com advogados que denunciaram um desembargador.

Esses episódios refletem um contexto onde o Judiciário busca reconquistar a confiança do público diante de suas falhas e desafios.

Fonte: redir.folha.com.br