Uma empresa israelense de tecnologia publicitária, Discover-Tech, é alvo de denúncias por rastrear a localização de usuários do serviço de internet via satélite Starlink. A revelação foi feita por veículos internacionais, incluindo Reuters e Haaretz, após uma investigação da TrendAI, braço de cibersegurança da Trend Micro, corroborada por organizações como Citizen Lab e Confiant.

O esquema da Discover-Tech explorava o sistema de leilão em tempo real de anúncios online, que coleta dados do usuário, como localização geográfica e tipo de dispositivo, sempre que ele acessava páginas ou aplicativos. O relatório da TrendAI indica que a empresa obteve um número desproporcional de lances bem-sucedidos em mais de 100 países, superando consideravelmente seus concorrentes.

Os pesquisadores da TrendAI afirmaram que a operação se assemelha a uma infraestrutura de espionagem, destacando que “a plataforma de anúncios funciona mais como uma ferramenta de vigilância do que como um negócio publicitário”.

O serviço Starlink, operado pela SpaceX, é vital em áreas com infraestrutura de internet comprometida, como zonas de conflito e países com restrições severas. No entanto, a tecnologia que oferece anonimato também atrai o interesse de governos e agentes estatais. A análise dos dados revelou que a Discover-Tech teve sucesso em leilões publicitários em regiões como Síria, Líbia, Iémen e Sudão do Sul, onde a demanda por publicidade legítima é quase inexistente.

O Citizen Lab e a Confiant confirmaram que a Discover-Tech abusou do processo de leilão, destacando que a coleta contínua de dados permite que usuários sejam desanonimizados e seus passos na web sejam rastreados com precisão alarmante.

Após as denúncias, grandes empresas de tecnologia, como Google e Comcast, tomaram medidas para remover a Discover-Tech de suas plataformas de anúncios. Além disso, corporações e órgãos governamentais iniciaram auditorias para verificar se funcionários que utilizavam conexão via satélite foram afetados.

A SpaceX e a Discover-Tech não se pronunciaram após as revelações. Analistas de cibersegurança alertam que o uso de redes de anúncios para espionagem representa uma séria ameaça à privacidade global, colocando em risco jornalistas, ativistas e equipes humanitárias que dependem de conexões via satélite em áreas vulneráveis.

Fonte: www.estadao.com.br