Trabalhadores de diversas partes do mundo estão mudando sua rotina ao iniciar o expediente: agora, antes de começar, eles apertam um botão para gravar suas atividades diárias, como dobrar roupas, lavar louça ou empilhar caixas. Essa prática, que ganhou força em 2026, está alimentando sistemas de inteligência artificial (IA) e auxiliando empresas como Tesla, Figure AI e Agility Robotics no treinamento de robôs humanoides.
Conforme a MIT Technology Review, investidores injetaram mais de US$ 6 bilhões em startups de robôs humanoides apenas em 2025. Essa nova abordagem ressignifica o trabalho humano, transformando-o em dados valiosos para sistemas de IA. Em vez de apenas executarem tarefas, os trabalhadores agora contribuem com dados comportamentais que podem ser usados para treinar máquinas.
Os trabalhadores, que se tornaram “sensores humanos”, utilizam celulares, câmeras ou óculos especiais para capturar seus movimentos e decisões. Essa autofilmagem é fundamental, pois os robôs físicos precisam entender como interagir com o mundo real, algo que vai além do que pode ser aprendido por textos e imagens na internet.
Esse modelo de treinamento se estende a várias profissões e setores, incluindo manufatura, serviços domésticos e ambientes de escritório. Iniciativas globais, como a Micro1 na Nigéria, contratam milhares de pessoas em mais de 50 países para filmar tarefas cotidianas em troca de pagamento por hora. Na Índia, startups como a Objectways criam estúdios para que os funcionários repitam tarefas específicas, enquanto nos EUA, a Meta coleta dados de cliques e movimentos de mouse de seus empregados.
Essas gravações não são simples registros; elas são transformadas em dados detalhados, permitindo que a IA aprenda a reconhecer objetos e ações a partir da perspectiva de quem executa as tarefas. A empresa Scale AI, por exemplo, já acumulou mais de 100 mil horas de vídeos focados no treinamento de robôs humanoides.
Apesar das vantagens, como a geração de renda em regiões com alto desemprego e a flexibilidade de horários, surgem preocupações. Críticas incluem a exposição de ambientes domésticos, a falta de transparência sobre o uso dos dados e o risco de substituição dos próprios trabalhadores pela automação.
Enquanto o mercado global de robôs humanoides cresce, com estimativas sugerindo a operação de mais de 1 bilhão de robôs até 2050, o Brasil ainda está se adaptando a essa realidade. Embora o país seja um dos maiores usuários de ferramentas de IA, a discussão sobre robôs humanoides ainda é incipiente.
A coleta de dados por vídeo apresenta um paradoxo claro: trabalhadores estão ensinando máquinas que podem, no futuro, substituir suas funções. Especialistas acreditam que essa transição será gradual, com uma convivência entre humanos e máquinas em vez de substituição total. No entanto, a incerteza gera apreensão, especialmente entre os mais jovens, que veem o primeiro emprego se tornando mais desafiador.
No fim das contas, o que antes parecia uma simples gravação de atividades cotidianas agora é uma parte crucial de uma economia de dados em crescimento. A questão que permanece é se esse novo cenário trará mais oportunidades ou se os trabalhadores estarão, em última análise, treinando as máquinas que poderão substituí-los.