As empresas brasileiras enfrentam um momento crítico, marcado por transformações que incluem a reforma tributária e a rápida adoção da inteligência artificial. Nesse contexto, a decisão de manter ou vender ativos se torna tão crucial quanto a escolha de novos investimentos. Embora a compra de um negócio seja frequentemente vista como um sinal de ambição, a venda é muitas vezes encarada como um sinal de fraqueza. Essa percepção pode explicar por que as empresas se concentram mais na aquisição de novos ativos do que na avaliação dos que já possuem.

Em seu livro “Divestitures: Creating Value Through Strategy, Structure and Implementation”, a professora Emilie Feldman, da Wharton School, destaca que desinvestimentos, em média, podem gerar mais valor aos acionistas do que aquisições. A reflexão proposta por Feldman incentiva os líderes a avaliarem continuamente seus portfólios, questionando se manteriam um ativo se ele não fizesse parte da empresa atualmente. Essa abordagem crítica pode revelar que alguns ativos são mantidos por inércia, não por estratégia.

Cada ativo dentro de uma organização compete por recursos, talentos e atenção da liderança. Em um ambiente econômico como o brasileiro, com custo de capital elevado, manter ativos de baixo potencial pode limitar a inovação e a produtividade. Assim, a verdadeira capacidade estratégica de uma empresa reside não apenas em quantos negócios controla, mas em sua habilidade de alocar capital de maneira eficaz.

Além disso, o desinvestimento não deve ser visto como uma perda, mas como uma oportunidade de reciclagem de capital. Muitas vezes, um ativo que não se encaixa mais na estratégia atual pode ser mais valioso nas mãos de outro controlador que consiga extrair sinergias ou escalas que a empresa atual não consegue.

A resistência ao desinvestimento geralmente é comportamental, ligada a decisões do passado que, embora tenham sido acertadas, podem não se aplicar mais. Organizações que revisitam seus portfólios frequentemente mantêm uma flexibilidade estratégica superior, permitindo realocar recursos de forma proativa. Por outro lado, aquelas que agem apenas sob pressão tendem a vender no pior momento possível.

Com os juros altos, liberar capital por meio de desinvestimentos pode financiar novos projetos sem aumentar a dívida, o que é crucial em um cenário de financiamento mais caro. O Brasil deve, portanto, não apenas focar na ampliação do investimento, mas também na qualidade da alocação do capital existente. A eficiência na alocação pode ser o diferencial entre o sucesso e o fracasso em um ambiente econômico em constante mudança.

A maturidade estratégica de uma empresa pode ser mais bem medida pela sua disposição em se desfazer de ativos desnecessários do que pela quantidade de aquisições realizadas. As empresas mais bem-sucedidas são aquelas que têm coragem para vender no momento certo.