A direita brasileira, que frequentemente espalhou fake news religiosas contra seus opositores, agora enfrenta uma desinformação semelhante, desta vez envolvendo Nossa Senhora Aparecida, uma figura central na cultura católica. A notícia falsa afirma que Flávio Bolsonaro (PL) planeja um projeto de lei para remover a santa como padroeira do Brasil. Segundo Paul Freston, sociólogo e especialista em pentecostalismo, “a direita está provando do próprio veneno”, referindo-se ao fato de que a desinformação retornou para afetar quem a propagou.
Freston relembra que boatos sobre a suposta intenção de Lula (PT) de fechar igrejas circulam desde as eleições de 1989, quando surgiram conflitos entre católicos e evangélicos. Ele narra que, em 1991, ouviu do pastor José Wellington Bezerra da Costa que havia uma crença de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pretendia estabelecer o catolicismo como a única religião oficial, algo que nunca se concretizou.
Embora as décadas tenham passado, a esquerda ainda enfrenta dificuldades em dialogar com evangélicos, utilizando estratégias que Freston considera inadequadas, como a presença da primeira-dama Janja nesse diálogo. Ele questiona: “Que esquerda é essa que acha que não pode aprender nada com a religião mais bem-sucedida entre os pobres?”.
Sobre o engajamento evangélico, Freston sugere que a desilusão com Flávio Bolsonaro pode ser um fator, além de uma possível reavaliação após as eleições de 2022. Ele também aponta que a figura de Aparecida ressurge em críticas evangélicas à idolatria, destacando que a imagem é vista como um símbolo do catolicismo, não compartilhado por protestantes.
A rivalidade histórica entre católicos e evangélicos, segundo o sociólogo, não é nova, mas ganhou um novo contorno com a disputa pela representação religiosa na esfera pública. Ele menciona que a Assembleia de Deus, na década de 1980, passou a adotar uma postura mais ativa na política, abandonando a ideia de que “crente não se mete em política”.
A afirmação de Flávio Bolsonaro de que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” reflete essa busca por espaço religioso, embora não signifique uma teocracia. Para Freston, essa retórica pode ser vista como uma tentativa de reafirmar a centralidade evangélica na vida pública.
O impacto da desinformação sobre Aparecida pode ter implicações significativas nas eleições, especialmente com Lula buscando aumentar o apoio católico. Historicamente, o PT teve dificuldades em reverter a rejeição entre evangélicos, resultado de erros passados e da indiferença em relação a esse segmento.
Na análise de Freston, a teologia do domínio nas igrejas evangélicas é uma fração pequena, mas que se intensifica à medida que se aproxima do poder. Ele critica a estratégia do PT de colocar Janja à frente do diálogo com evangélicos, considerando que sua imagem não é bem recebida nesse meio.
Em resumo, a desinformação envolvendo Nossa Senhora Aparecida ressalta a complexidade das relações entre religiões e política no Brasil, evidenciando um ciclo de fake news que pode ter consequências diretas nas próximas eleições.
Fonte: redir.folha.com.br