O Rio de Janeiro se prepara para as eleições sob a gestão interina de um governador escolhido pelo STF, buscando encerrar um ciclo de intervenções e suporte federal nas áreas econômica e de segurança. Nos últimos dez anos, o estado enfrentou duas renegociações de dívidas, recebeu auxílio financeiro antes das Olimpíadas e contou com a presença das Forças Armadas em três ocasiões, incluindo uma intervenção federal na segurança pública.

A crise fluminense é significativa em nível nacional, devido à sua relevância econômica e política, sendo o segundo maior PIB estadual e possuindo a segunda maior região metropolitana em termos populacionais. Especialistas, como a historiadora Marly Motta, observam que a tradição de Rio de Janeiro como antiga capital do Brasil ainda influencia a percepção sobre a necessidade de intervenções federais.

Desde a década de 1990, o estado tem enfrentado ações extraordinárias do governo federal, começando em 1994, quando as Forças Armadas foram mobilizadas para combater facções criminosas. Ao todo, foram emitidos 20 decretos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), permitindo a atuação militar em crises. A última GLO, assinada em 2023, visou apoiar o policiamento em portos e aeroportos, encerrando no ano seguinte.

A situação financeira do estado também piorou com sucessivas renegociações de dívidas. Desde 1999, o Rio de Janeiro fez acordos para reestruturar sua dívida. Em 2016, o estado recebeu R$ 2,9 bilhões após declarar calamidade pública financeira. A intervenção federal na segurança pública gerou uma economia de R$ 1,6 bilhão em salários de policiais e custeio, além de R$ 1,5 bilhão em investimentos.

Mauro Osório, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta que o estado nunca foi compensado pela perda de sua condição de capital federal na década de 1960. A crise política também é atribuída à desestruturação da liderança local durante a ditadura militar e à persistência de práticas clientelistas. Ele observa que a dependência do petróleo e a falta de uma base produtiva diversificada agravam a situação econômica.

Entre 2002 e 2023, o Rio de Janeiro apresentou um dos menores crescimentos do PIB entre os estados brasileiros, afetando 11 das 12 atividades econômicas analisadas pelo IBGE. A participação dos royalties do petróleo no orçamento estadual aumentou significativamente, mas sofreu uma queda acentuada em 2016, intensificando a crise.

Às vésperas das eleições de outubro, o estado aguarda uma decisão do STF sobre a redistribuição dos royalties do petróleo, uma questão que pode impactar em até R$ 8 bilhões por ano no orçamento fluminense. O julgamento, que se arrasta desde 2013, foi retomado em maio, mas foi interrompido por um pedido de vista.

O atual governador interino, desembargador Ricardo Couto, tem promovido auditorias e demissões de funcionários suspeitos, enquanto a Polícia Federal investiga a infiltração do crime organizado na política local. Marly Motta alerta para a natureza da intervenção atual, que, segundo ela, é judicial e não democrática, enquanto Osório vê a gestão de Couto como uma chance para mudanças.

A mudança na elite política do Rio, marcada por práticas clientelistas, é vista como essencial para a recuperação do estado. A dependência econômica e a falta de diversificação permanecem desafios significativos.

Fonte: redir.folha.com.br